Antonio Mesquita

Carta

Antonio MesquitaCeará · escrita em 26 de julho de 2026

Assunto: o que não coube na tabela.

Para quem veio da tabela,

Se você chegou pela home, já viu a tabela: cinco linhas, cinco períodos e uma coluna chamada “o que fiz”. Está tudo certo lá, e é curto de propósito. O que vem agora é a outra metade — o que eu não sabia, o que mudou e o que eu ainda faço mal. Nenhuma linha se repete aqui; se repetisse, uma das duas páginas estaria sobrando.

O retorno imediato

por que a web fixou

A web tem uma propriedade que eu não encontrei em mais nada que tinha estudado: você escreve, salva, e está na tela. O retorno é imediato e não negocia. Ou aparece, ou não aparece — e quando não aparece, o problema é seu e de mais ninguém. Foi isso que me prendeu, antes de eu ter qualquer ideia de que aquilo fosse uma profissão.

Comecei fazendo coisa feia que funcionava. Continuo achando que é a ordem certa: primeiro funcionar, depois ficar legível, depois ficar defensável. Quem inverte entrega bonito e quebra na segunda semana, e aí não tem nem o bonito nem o que funciona.

A faculdade não me ensinou a programar, e eu não acho que essa seja a função dela. Ela me deu base e me deu tempo: um período em que ficar tentando era o meu trabalho e ninguém cobrava resultado. Só entendi quanto isso vale depois que passou a ter prazo.

Desenho 1 — Antes de alguém depender do que eu escrevia.

O segundo leitor

quando o código deixa de ser seu

O primeiro emprego muda uma coisa só, e essa uma muda todo o resto: o código para de ser seu.

Enquanto você estuda, o único leitor é você amanhã de manhã. Num time, o leitor é alguém que não estava lá quando você decidiu, não tem o seu contexto e vai precisar mexer nisso com pressa. Escrever para essa pessoa é uma habilidade separada de programar, e não é ensinada em lugar nenhum.

Foi aí que eu entendi para que serve teste automatizado. Não é para provar que o código funciona — para isso basta rodar e olhar. É para você poder mexer numa coisa que já funciona sem sentir medo. Teste é permissão para mudar de ideia depois.

E foi aí que eu aprendi a coisa mais ingrata que eu sei fazer: transformar em texto uma decisão que antes era só minha. Todo texto desses precisa de um motivo escrito do lado. Sem o motivo, vira burocracia em duas semanas, e burocracia é pior do que nada, porque a pessoa cumpre sem entender e o erro passa igual. Você também tem que aceitar que uma parte do que escreveu está errada, e que a assinatura embaixo é a sua.

Desenho 2 — A mesma mesa, com uma cadeira a mais.

A ferramenta

e o pouco que sobra dela

Houve um período em que a ferramenta mudava mais rápido do que eu conseguia me apegar a ela. Isso ensina uma coisa que ficar parado numa só não ensina: quase nada do que a gente chama de conhecimento é sobre a ferramenta.

Framework é sintaxe, e sintaxe se lê. O que se repete em todo projeto é sempre o mesmo punhado de perguntas: onde mora o estado, quem é dono do dado, o que o sistema faz quando a resposta não chega, e o que acontece com quem estava no meio de uma ação quando isso aconteceu.

Aprendi a ler documentação como quem procura uma coisa específica, e não como quem estuda para prova. E aprendi que “dá para fazer” e “dá para manter” são perguntas diferentes — a segunda é a única que importa quando a mudança pequena chega depois, e ela sempre chega depois.

Também aprendi o preço. Quando você entrega rápido por muito tempo seguido, começa a confundir velocidade com competência. Velocidade é uma dívida que alguém paga depois — às vezes você mesmo, sem lembrar por que fez daquele jeito.

A decisão

e o preço de dizer não

O cargo que eu tive soa maior do que era. Não tinha departamento, não tinha organograma, não tinha ninguém entre mim e o problema. Na prática significava uma coisa só: quando uma decisão técnica estava errada, a culpa tinha endereço, e o endereço era o meu.

A parte difícil não foi técnica. Foi descobrir que o que mais travava o que eu tocava não era decisão de engenharia — era decisão de produto que ninguém quis tomar. Pergunta do tipo “o que o sistema faz quando o caso não se encaixa em nenhuma regra” não se resolve escolhendo banco de dados. Ela fica parada até alguém assumir, e quem assume normalmente é quem estava do lado.

E tem a parte de dizer não. Eu sempre fui muito melhor em dizer “dá para fazer” do que em dizer “dá, custa isto, e por isso eu acho que não deveríamos”. A primeira frase é fácil e agrada na hora. A segunda exige número, exige estar disposto a errar na frente de todo mundo, e exige aguentar o silêncio de dois segundos depois. Ainda estou aprendendo a segunda. É o que mais mudou o meu trabalho no último ano, e não tem uma linha de código dentro.

O que falta

a lista que ninguém escreve

Escrevo isto aos 21, o que é pouco tempo para ter certeza de qualquer coisa. Trato as minhas opiniões como provisórias e reviso esta carta quando alguma delas cai.

O que eu sei fazer hoje, com alguma confiança: levar um produto do banco de dados até a tela sem depender de ninguém para as partes do meio; decidir sozinho quando precisa ser rápido; reconhecer quando a decisão é grande demais para ser só minha; e escrever o que eu decidi de um jeito que a próxima pessoa entenda sem precisar me achar.

O que eu ainda faço mal: estimar. Continuo achando que as coisas levam menos tempo do que levam, e já entendi que isso não se conserta com experiência — conserta escrevendo o que deu errado da última vez, e eu ainda não faço isso com disciplina. Coordenar gente é o outro: tenho pouco treino, e prefiro dizer isso agora do que você descobrir comigo depois.

Desconfio de mim toda vez que a palavra “escala” sai da minha boca. É barato projetar para um número de usuários que ainda não existe, e caro descobrir que você projetou para o número errado.

A lista do que a pessoa não sabe é a parte mais útil de um currículo. É também a única que ninguém escreve.

Desenho 3 — Hoje. É o desenho com menos traço dos três.

É isso. Se você leu até aqui, já sabe mais sobre como eu trabalho do que costuma caber numa conversa de uma hora.

Um abraço,

Antonio Mesquita · Ceará, Brasil

P.S.

Se você tem um problema e ainda não sabe se ele é técnico, é exatamente o tipo de conversa de que eu mais gosto. Me escreve.

P.S. 2

O lado de engenharia disto, produto por produto, está em /projetos, em prancha técnica.

P.S. 3

Se você caiu aqui direto e quer o registro seco — quando, onde, cargo, o que eu fiz —, ele está na tabela da home. Esta página é a outra metade, de propósito.

Sobre os desenhos — Os três saíram do mesmo traço do retrato que abre a home, e não são imagem: são caminho. O retrato é nanquim sobre papel, feito à mão; estes três foram gerados a partir dele e vetorizados — o traço é o mesmo, a mão não. Somam 308 contornos. A tinta entra na velocidade em que você rola: se você passa rápido, o contorno chega e a tinta não; se você para, ela alcança. Voltar drena a tinta e deixa o risco no papel. Esta página é de uma tinta só.